Receba as notícias:

Valoração ambiental

2005-12-07
Por Por João Fernando Marques, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente *

Uma das principais questões debatidas actualmente quando se trata das relações entre os sistemas económicos e os sistemas ecológicos ou ambientais refere-se ao processo de se associar valores económicos aos bens e serviços ambientais. O processo de valoração económica do meio ambiente tem-se constituído em um amplo e importante campo de pesquisas teóricas e trabalhos empíricos. Claramente, por se tratar de um ramo da ciência que envolve o comportamento humano, não é desprovido de controvérsias, advindas de preferências teóricas e metodológicas.

* marques@cnpma.embrapa.br

Num esforço de síntese identificam-se duas áreas de conhecimento onde os estudos e exercícios sobre valoração têm evoluído – a economia do meio ambiente e a economia ecológica. Os estudos da economia do meio ambiente e dos recursos naturais baseiam-se no entendimento do meio ambiente como um bem público e dos efeitos ambientais, como externalidades geradas pelo funcionamento da economia.

Assim, os valores dos bens e recursos ambientais e dos impactos ambientais, não captados na esfera de funcionamento do mercado, devido a falhas em seu funcionamento, podem ser estimados, na medida em que se possa descobrir qual a disposição da sociedade e dos indivíduos a pagar pela preservação ou conservação dos recursos e serviços ambientais. De forma geral, o valor económico dos recursos ambientais tem sido desagregado na literatura da seguinte maneira: Valor económico total (VET) = Valor de uso (VU) + valor de opção (VO) + Valor de Existência (VE).

O valor de uso (VU) representa o valor atribuído pelas pessoas pelo uso, propriamente dito, dos recursos e serviços ambientais. O VU é composto pelo valor de Uso Directo (VUD) e pelo Valor de Uso Indirecto (VUI). O VUD corresponde ao valor atribuído pelo indivíduo devido a utilização efectiva e actual de um bem ou serviço ambiental, por exemplo, extracção, visitação ou alguma outra forma de actividade produtiva ou consumo directo, com relação às florestas, e VUI representa o benefício actual do recurso, derivado de funções ecossistêmicas como, por exemplo, a protecção do solo, a estabilidade climática e a protecção dos corpos d’água decorrentes da preservação das florestas.

O Valor de Opção (VO) representa aquilo que pessoas atribuem no presente para que no futuro os serviços prestados pelo meio possam ser utilizados. Assim, trata-se de um valor relacionado a usos futuros que podem gerar alguma forma de benefício ou satisfação aos indivíduos. Por exemplo, o benefício advindo de fármacos desenvolvidos com base em propriedades medicinais ainda não descobertas de plantas existentes nas florestas. O terceiro componente, o Valor de Existência (VE), caracteriza-se como um valor de não-uso.

Esta parcela representa um valor atribuído à existência de atributos do meio ambiente, independentemente, do uso presente ou futuro. Representa um valor conferido pelas pessoas a certos recursos ambientais, como florestas e animais em extinção, mesmo que não tencionem usá-los ou apreciá-los na actualidade ou no futuro. A atribuição do valor de
existência é derivada de uma posição moral, cultural, ética ou altruística em relação aos direitos de existência de espécies não-humanas ou da preservação de outras riquezas naturais, mesmo que estas não representem uso actual ou futuro para o indivíduo.

Existem diversos métodos de valoração que objectivam captar estas distintas parcelas do valor económico do recurso ambiental. Todavia, cada método apresenta limitações em suas estimativas, as quais estarão quase sempre associadas ao grau de sofisticação metodológica, a necessidade de dados e informações, às hipóteses sobre comportamento dos indivíduos e da sociedade e ao uso que se será dado aos resultados obtidos.

A Economia Ecológica, por sua vez, constitui-se em uma abordagem que procura compreender a economia e sua interacção com o ambiente a partir dos princípios físicos e ecológicos, em meio aos quais os processos económicos se desenvolvem. Em termos gerais, os métodos de valoração baseados nesta abordagem utilizam o montante de energia capturada pelos ecossistemas como uma estimativa do seu potencial para a realização do trabalho útil para a economia. Este processo de valoração, geralmente, utiliza do conceito de Produção Primária Bruta de um ecossistema.

A Produção Primária Bruta é uma medida da energia solar utilizada pelas plantas para fixar carbono. Assim, a energia solar capturada pelo sistema é convertida em equivalente de energia fóssil. Posteriormente, faz-se a transformação deste equivalente em energia fóssil em unidades monetárias, utilizando-se uma relação entre o Produto Interno Bruto e o total de energia usada pela economia. O método da análise energética propõe definir os valores ecológicos dos ecossistemas em função dos custos da energia envolvida na sua produção: a quantidade de energia necessária para a organização de estrutura complexa, como o ecossistema, pode servir como medida de seu custo de energia, de sua organização e de
seu valor.

Outro método que adota, em termos gerais, os mesmos princípios, chama-se análise emergética que considera todos os fluxos de energia, materiais e informação que ocorrem em um sistema, e os transforma em uma única base, em unidades de energia solar, e posteriormente também utiliza o Produto Interno Bruto para encontrar valores económicos para os sistemas ambientais.

Cada abordagem e método apresenta vantagens e desvantagens, compreender suas limitações e procurar avanços na compreensão dos fenómenos naturais e do entendimento económico orientados pelo objectivo maior, que é o desenvolvimento sustentável, é o desafio presente para todas as correntes de pensamento.

Vanessa Elisa Klafke
2009-05-13
04:15
A partir do momento que mensurarmos, da forma mais apropriada, o valor econômico do ativo ambiental e, a partir daí, internalizarmos os custos ambientais nos diversos projetos econômicos e termos econômicamente avaliada nossa riqueza ambiental remanescente, em detrimento de países que a " consumiram " em nome do desenvolvimento; quem sabe estaremos caminnhando para um mundo significaticamente melhor.
dany
2010-02-17
15:33
muito bom:)
Maristela silva de Sousa
2011-09-13
19:10
Em nome do desenvolvimento tÊm se sacrificado muitas vidas humanas e não humanas. nNo final de tudo a extinção será a do próprio homem. O valor economico ambiental não pode ser mensurado, pois tudo o que é dado um determinado valor monetário tende a se tornar excasso nas mãos da grande maioria em detrimento da desigualdade social. E se isso acontecer, perderemos o direito da luz do sol, do vento natural, como vem acontecendo com a sombra e frescor das florestas. Chega de querer colocar preço em tudo, vamos simplismente voltar aquele tempo que não se precisava de tanta coisa para sermos saciados e felizes, ate porque isso é falso. Que tal mensaurarmos a nossa burrice, ignorância, ganância, estupidez e mentira.
Patrìcia
2012-08-27
02:55
Maravilhoso, falou paouco maisfalou muito.
Thalita
2013-02-05
21:53
Muito bom, me encontrei agora. Esse é o ramo que quero seguir!

Adicionar comentário:

Comentário
Nome:
Email:
Insira as letras na caixa
Ciência Hoje não publica comentários anónimos. Ciência Hoje só publica comentários identificados com nome e email para eventual posterior contacto. Ciência Hoje recusa publicar comentários insultuosos ou ataques pessoais.

Últimas notícias

IMM avança no estudo de miopatia centronuclear

Cientistas do IST propõem teste experimental
para a equação mais exótica da física clássica

Português galardoado pela primeira vez
com prémio norte-americano em biologia reprodutiva

Investigador da UC preside a comissão mundial responsável
pela descrição e classificação de bactérias

Empreendedores Portugueses aceleram nos Estados Unidos
em programa de imersão «inRes»

Universidade de Coimbra no topo
da imagiologia molecular mundial

Leptospirose humana nos Açores:
da resposta imunológica à susceptibilidade genética

«Meu dito, meu escrito» ou de como a Ciência
já conheceu melhores dias em Portugal

O sucesso escolar começa à mesa!

Professora da UMinho vence prémio ibérico de contabilidade

João Falcão e Cunha é o novo director da FEUP

Mega experiência estuda o impacto das alterações climáticas
na biodiversidade da península ibérica

Os porquês do colapso da plataforma de gelo Larsen B

Investigadora de Coimbra reduz em 26,5%
a ocorrência de flebites

Equipa de Coimbra cria aerogel em spray
que permite isolar foguetões

Bioquímica portuguesa homenageada em Estocolmo

Esperar ou não esperar
- o papel da confiança na tomada de decisões

Implantes dentários «ganham» volume ósseo

Em Portugal um tratamento específico
depende da região onde se mora

Eousdryosaurus, o pequeno dinossauro
que viveu num tempo de gigante

Um em cada quatro já traiu

A Ciência da Gestão de Ciência e Tecnologia
– reflexões de uma despedida

A ansiedade de estar doente no hospital?
O ambiente do quarto pode ajudar!

Prémio António Champalimaud reconhece tratamento
revolucionário de doenças graves da visão

João Rocha é o primeiro português
da European Academy of Sciences

O Porto na Guerra Fria

Nariz electrónico pode detectar
subgrupos de asma nas crianças

Oceanos de Esperança chegou a Boston

Braga quer construir travessas de caminho-de-ferro
com resíduos de plásticos mistos

Comer com sucesso no Mercado do Bom Sucesso