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Gosta de picantes? Talvez valha a pena!

2012-08-22
Por Ana Margarida Nunes *
O picante, seja sob a forma de malagueta, pimenta ou gengibre, surte normalmente um efeito amor-ódio de pessoa para pessoa. É evidente que em determinadas culturas o número de pessoas que adora picante é muito maior, como nalguns países asiáticos, africanos e sul-americanos. 

* Licenciada em Biologia Microbiana e Genética pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorada em Neurociências pelo King's College London em 2009.
Nestes países, a humidade é muito elevada o que leva a um maior apodrecimento da comida, que por sua vez leva ao aparecimento de bactérias que são prejudiciais para qualquer estômago. Ora, a forma mais eficaz de matar estas bactérias é adicionando picantes.

Pessoas que toleravam o picante, tinham maior probabilidade de sobreviver em oposição às intolerantes. Além disso, a ingestão de picantes provoca uma sensação de queimadura levando ao aumento da produção de suor que instantaneamente conduz ao arrefecimento do corpo. Efeito muito benéfico em países muito quentes!

Os noci-receptores, quando em contacto com a capsaicina, respondem exactamente da mesma forma do que quando estimulados pelo calor de uma chama
Os noci-receptores, quando em contacto com a capsaicina, respondem exactamente da mesma forma do que quando estimulados pelo calor de uma chama
Mas porque sentimos que estamos a “arder”? Muito simples! Na malagueta há uma proteína específica, a Capsaicina, presente nas sementes, que é irritante quando em contacto com a pele mas muito mais “irritante” quando em contacto com a língua. Isto porque na língua existem umas células nervosas especiais, os noci-receptores, que quando em contacto com a capsaicina respondem exactamente da mesma forma do que quando estimulados pelo calor de uma chama.

A capsaicina activa umas proteínas existentes no neurónio, as TRPV1, igualmente accionadas quando a temperatura aumenta para 37 - 45ºC. Aqui o sistema nervoso é enganado pela malagueta. Sentimos simultaneamente dor e calor!

A informação de dor e calor passa da língua para a espinal medula e desta para o cérebro sempre através de impulsos eléctricos e químicos numa sequência perfeita de neurónios, semelhante aos carris de um comboio. No cérebro, activa umas regiões específicas de dor e calor, de entre as quais o hipotálamo. Quando a informação “picante” chega ao hipotálamo, este responde ordenando “transpiração”. Esta nova ordem, sai do cérebro em direcção à produção de hormonas para quase todo o corpo. Quanto mais picante a malagueta mais se transpira.

Este processo que acabei de explicar ocorre também com a pimenta e o gengibre. Estas substâncias picantes são muito utilizadas para o tratamento de dores musculares com efeito de analgésico. Estudos sugerem ainda que poderão ser benéficas para prevenção de demência e estados depressivos.

Fica agora uma questão: será que há menos doenças neurodegenerativas em populações “viciadas” em picante?

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